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15/04/2008 às 12:37:00

O limite de Romário


O futebol não conta mais com Romário de Souza Faria. O Baixinho decretou seu adeus cheio de serenidade e parece que foi pra valer. Certamente ainda o veremos jogando em partidas comemorativas, festas, campeonatos de futevôlei ou futebol de areia, mas a saga romariana em jogos oficiais está encerrada.

Romário foi único. Não vai surgir outro igual. Com a marra dele, com a falta de vontade para treinar e, principalmente, com tanta intimidade com o gol. O papo dele não era com a bola, era com as redes. Não que não tenha esbanjado categoria com a redonda nos pés, pelo contrário, mas todo carinho a ela dispensado tinha o claro objetivo de mandá-la para o gol, de adicionar mais um tento à conta que chegou a 1002.

Descrever a carreira do craque para ilustrar o quanto ele significa é desnecessário, até porque todos os jornais, revistas e programas de televisão cuidarão disso, com justiça, nesses dias que se seguem - e por muito tempo ainda. Romário faz parte da história do futebol.

Prefiro usar este espaço para contar um pouco do que Romário significa para mim. O Baixinho foi, certamente, meu primeiro grande ídolo no futebol, esporte que comecei a acompanhar com afinco no início dos anos 90.

A primeira lembrança marcante que tenho é das Eliminatórias para a Copa de 94, mais precisamente 93. Rádio e televisão defendiam ferrenhamente a convocação do Baixinho para a seleção do Parreira. Foi o meu pai quem me explicou que Romário era um atacante fantástico que jogava na Espanha, assim como o Bebeto, que era do La Coruña.

Fossem os tempos de hoje, bastava um Google e, rapidamente, saberia tudo a respeito de Romário. Na época, porém, ficava atento ao horário dos noticiários esportivos para saber mais sobre ele. Começava também o meu fascínio pela revista Placar.

Foi naquele fatídico e decisivo jogo das Eliminatórias diante do Uruguai, porém, que eu tive uma noção mais precisa do quanto aquele cara era fera. Dois gols fantásticos, Brasil classificado para a Copa, a primeira que eu acompanharia de verdade. E o que aconteceu nos gramados dos Estados Unidos dispensa descrição. Ali, Romário se tornou meu ídolo.

Acho um erro dizer que ganhou a Copa do Mundo sozinho. Vale somente como figura de linguagem para dar dimensão de sua importância. A janela do avião na chegada ao Brasil, no entanto, foi um espetáculo à parte. O matador não só ganhou aquele troféu como o fez cheio de vontade, de prazer.

Os anos que se seguiram trouxeram Romário de volta ao Brasil e, com ele, as polêmicas, fruto de sua autenticidade. Sem politicagem, sem psicologia barata, sem média com nada ou ninguém, o Baixinho sempre falou o que deu na telha. A falsidade passou longe desse cara e, com isso, ele só ganhou mais admiradores.

Na Seleção, veio a parceria com o fenomenal Ronaldo, até hoje o único que pode ser considerado tão ídolo quanto Romário. Batizada de Ro-Ro, foi provavelmente, a dupla de ataque mais espetacular que o Brasil formou desde que o futebol passou a ser jogado sem a figura do ponta, com dois atacantes pelo meio.

Uma dupla que tinha tudo para arrebentar na Copa de 98, não fosse o corte do Baixinho, às vésperas da competição, uma saída que certamente abalou o elenco. A simples presença de Romário no grupo era importante, até porque ele mesmo garantia a recuperação para a fase eliminatória da Copa. Quem sabe não seria ele o substituto ideal para Ronaldo na final com a França? A história poderia ser outra.

A essa altura, Romário já tinha mais de 30, mas não queria saber de parar. O ano de 2000 foi espetacular, com a conquista do título Brasileiro pelo Vasco. Quando Felipão assumiu a Seleção Brasileira, ganhou até a faixa de capitão, mas se desentendeu com o técnico gaúcho e perdeu a chance de jogar a Copa de 2002.

Muitos acham que ele poderia ter pendurado as chuteiras ali, no auge, mas o Baixinho sempre foi apaixonado por gols e não pararia enquanto pudesse fazê-los. Traçou o objetivo de chegar à marca de 1000 e causou muita polêmica em sua contagem, mesmo para aqueles que o consideravam um astro decadente.

Ameaçou parar algumas vezes, mas não conseguiu abandonar o vício do gol. Não precisava mais correr como antes. Era só esperar na posição certa, que ele sabia muito bem qual era, e mandar para dentro. Seguiu assim, fazendo e acontecendo no futebol do Rio de Janeiro, até a chegada do gol 1000, também pelo Vasco. A reta final da contagem romariana foi fervorosa e causou ansiedade por todo o Brasil no ano de 2007.

Com o objetivo alcançado, no entanto, Romário aquietou-se um pouco. Faltava motivação. O Baixinho voltou a ser notícia em 2007 quando, numa decisão polêmica, Eurico Miranda decidiu que ele seria o treinador interino em uma partida da Copa Sul-Americana, contra o América, do México.

Aquele foi um jogo especial pra mim. Tratava-se de um momento histórico e eu estava coordenando a transmissão pela Band. Foi uma noite especial, principalmente quando o técnico-jogador promoveu sua própria entrada em campo. Só faltou o gol. Uma pena.

Uma suspensão por doping no final do Brasileiro daquele ano tratou de distanciar o craque da bola. A função de treinador do Vasco ainda o manteve perto dos gramados, mas dali, da beirada do campo, ele não podia fazer gol.

A personalidade forte de Romário impediu que ele continuasse como técnico, sendo contrariado pelo presidente Eurico Miranda. Pedido de demissão e tempo para refletir. O Baixinho refletiu e concluiu que chegou ao seu limite.

Quem viu, viu. Quem não viu, faça louvor à modernidade, pois poderá assistir a grande maioria de seus gols.





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